

Marcela Marcos
Publicado em 24 de junho de 2026 às 11:41h.
A ideia de que tomamos decisões de forma racional o tempo todo não corresponde ao real funcionamento do nosso cérebro. A maior parte das escolhas, na verdade, acontece de forma automática, baseada em nossas experiências passadas, referências culturais e hábitos acumulados ao longo da vida. É isso o que chamamos de viés inconsciente.
O problema aparece quando esses vieses começam a afetar as escolhas que tomamos no trabalho, como a forma como você avalia seus colegas, escolhe oportunidades, interpreta feedbacks ou constrói networking.
O artigo How to Spot and Tackle Unconscious Bias at Work, da Harvard Business Review, mostra que vieses automáticos influenciam contratações, promoções e avaliações de desempenho mesmo em equipes que defendem diversidade. Assim, saber o que é o viés inconsciente pode evitar que ele atrapalhe suas decisões de carreira.
O viés inconsciente pode ser interpretado como um julgamento automático criado pelo nosso cérebro para acelerar ações. Nossa mente recebe uma quantidade alta de informações o tempo inteiro. Para lidar com esse volume, o cérebro cria padrões e associações rápidas.
Esse mecanismo faz parte do funcionamento humano. O problema é que essa reação costuma aparecer antes da análise racional. Em muitos casos, a pessoa acredita estar agindo de forma neutra sem perceber que alguns filtros estão influenciando suas escolhas.
A neurociência já discutiu esse comportamento em diferentes estudos. Por exemplo, o livro Thinking, Fast and Slow, publicado por Daniel Kahneman em 2011, popularizou a ideia de que o cérebro alterna entre decisões rápidas e analíticas.
O IBGE mostrou, no passado, que o salário das mulheres costuma ser menor que o dos homens em cargos semelhantes, mesmo com maior presença feminina no ensino superior. Parte dessa desigualdade se relaciona aos vieses inconscientes.
A falta de atenção aos próprios vieses pode levar você a ignorar oportunidades, evitar mudanças de carreira, rejeitar feedbacks, limitar o networking, repetir padrões de comportamento e avaliar pessoas de forma precipitada, principalmente em processos seletivos.
Também publicado na HBR por David Rock e Heidi Grant, o famoso artigo Why diverse teams are smarter já mostrava que grupos com trajetórias diferentes tendem a tomar decisões mais completas e identificar erros com maior facilidade. Nesse sentido, desenvolver inteligência emocional no trabalho pode ser um bom caminho.
A redução dos vieses começa pela observação do próprio comportamento. O objetivo não é eliminar julgamentos automáticos, mas criar uma maneira de evitar escolhas precipitadas. Esse é um ponto importante, principalmente para quem está em cargos de liderança e precisa decidir quem contratar, quem promover e quem demitir o tempo todo. Confira abaixo nossas dicas:
A pressa favorece respostas automáticas. Quando possível, reserve um tempo antes de aceitar propostas, avaliar pessoas ou tomar decisões difíceis. Fazer uma pausa ajuda o cérebro a sair do modo automático e analisar informações com mais atenção. O hábito pode ser útil em situações como mudança de emprego, negociação salarial, escolha de parceiros de projeto e avaliação de candidatos.
Critérios objetivos ajudam a reduzir a influência dos vieses. Se você vai escolher um curso, avaliar uma vaga ou montar uma equipe, defina quais parâmetros você vai analisar antes de olhar para as opções disponíveis.
Por exemplo, no caso de estar pensando em mudar de emprego, você pode observar a faixa salarial, possibilidade de crescimento na nova posição, modelo de trabalho, cultura da empresa e compatibilidade com metas profissionais.
A convivência com pessoas parecidas limita o surgimento de ideias inovadoras. A construção de conexões com profissionais de diferentes áreas, idades e trajetórias amplia a troca de experiências e reduz visões limitadas sobre o mercado de trabalho. A busca por contatos fora da zona de conforto pode gerar acesso a informações, oportunidades e perspectivas diferentes.
O viés de afinidade faz você confiar mais em pessoas com gostos, experiências ou perfis parecidos com os seus. Voltando ao exemplo de vieses inconscientes em cargos de liderança, isso pode fazer com que o gestor só contrate pessoas parecidas, promova quem tenha trajetória semelhante ou prefira quem estudou na mesma universidade.
Além disso, os vieses podem limitar a diversidade de ideias, reduzir oportunidades de troca e diminuir as chances de surgir soluções inovadoras.
O viés de confirmação acontece quando a pessoa busca apenas informações que reforçam suas próprias opiniões. Esse comportamento dificulta mudanças de perspectiva, pode fazer alguém ignorar críticas e encontrar de fato a raiz de algum problema.
O efeito halo surge quando uma característica positiva influencia toda a percepção sobre alguém. Uma pessoa com boa comunicação, por exemplo, pode ser vista como competente em outras áreas sem que ela realmente seja.
O viés de ancoragem acontece quando o cérebro se prende à primeira informação recebida. Em negociações salariais, por exemplo, o primeiro valor apresentado pode influenciar toda a conversa, mesmo que esteja abaixo da média de mercado.
A percepção dos próprios vieses e do funcionamento do cérebro pode fortalecer decisões profissionais ao longo da carreira. Criar o hábito de questionar suas próprias escolhas e entender se foram tomadas de maneira automática pode fazer a diferença em escolhas de trabalho, relações profissionais e desenvolvimento de carreira.
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