

Denise Gabrielle
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 17:28h.
Uma conversa olho no olho pode mudar o rumo de uma carreira. Foi nesse ambiente de encontros entre jovens e empresas que mais de 660 estudantes e recém-formados participaram da edição de agosto da Conferência de Carreira 2026, em São Paulo.
A Conferência é um evento de recrutamento organizado pelo Na Prática diferente das feiras tradicionais. Os estandes e brindes são proibidos, enquanto boa parte das interações acontece nas mesas de relacionamento, entre jovens e empresas.
Para participar do evento também é preciso ser aprovado em um processo seletivo que ocorre nas semanas anteriores. Para esta edição foram cerca de 11 mil jovens interessados e 22 empresas de diferentes setores.
Para receber a todos com conforto, nesta edição a área destinada às mesas de relacionamento foi ampliada para abrigar empresas de segmentos como tecnologia, consultoria, bens de consumo, saúde e mercado financeiro.

A proposta das mesas de relacionamento muda uma etapa que costuma acontecer de forma distante nos processos seletivos: o primeiro contato entre candidato e empresa. Nelas, os participantes puderam explicar seus interesses, fazer perguntas e ouvir de quem já trabalha nas organizações.
Foi o que chamou a atenção de Heloísa Santos, 22 anos, recém-formada em marketing pela USP. Em busca de uma vaga efetiva, ela chegou ao evento querendo participar de entrevistas, mentoria, painel de conteúdo e das mesas.
“Eu já venho procurando emprego há alguns meses e percebia como era um processo muito moroso, nem sempre você é notado. E aí aqui eu já percebi que foi diferente”, conta.
Para ela, o contato presencial também ajudou a refletir sobre a própria trajetória. “Aqui eu tive essa chance de me mostrar e, enfim, acho que consegui também reforçar o meu potencial, de ver que eu tenho valor sim, consigo ser contratada.”

A experiência pode produzir efeitos que vão além de uma candidatura. Eduarda, 20 anos, estudante de ciências sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, percebeu que as primeiras conversas ajudaram a ganhar confiança para as seguintes.
“Depois da minha terceira entrevista ali falando com eles, você se solta mais. É mais fácil de você falar sobre si mesmo se você já falou duas, três vezes. Então na quarta vez vai ser ainda melhor”, afirma.
Ela também decidiu conversar com empresas que inicialmente não estavam entre suas prioridades. O resultado foi descobrir oportunidades que não conhecia tão bem: “Nas que eu não tinha tanta preferência, eu me soltei mais, e foram as que mais gostaram de mim.”
Do outro lado da mesa, os recrutadores também enxergam valor nessa aproximação. Para Luigi Gioia, da área de pricing da ZAMP, marca que opera restaurantes como Burger King e Starbucks no Brasil, o contato permite que os jovens conheçam áreas que não costumam aparecer quando se olha apenas para o título de uma vaga.
“É uma ótima forma de gerar oportunidades para eles e muitas vezes quebrar essa barreira de saber como aquela área atua, de conhecer novas funções. Muitas vezes os jovens ainda não conhecem muito bem o que é uma determinada área”, explica.
Segundo ele, a empresa busca principalmente candidatos com protagonismo e interesse multidisciplinar.
As conversas nas mesas de relacionamento também representam o início de um processo seletivo. Enquanto algumas empresas aproveitam o momento para fortalecer sua base de talentos, outras já estão de olho em preencher vagas abertas o quanto antes. Um levantamento preliminar da equipe do Na Prática contabilizou que mais de 200 entrevistas de emprego foram realizadas durante o evento.
Se nas mesas o desafio era iniciar uma conversa, no Pitch os participantes precisaram fazer algo ainda mais difícil: sintetizar a própria trajetória em dois minutos e diante de recrutadores.
Essa é uma dinâmica que acontece na Conferência em paralelo com as conversas com as empresas. Para participar dela, é preciso enviar um vídeo durante o processo seletivo e ser selecionado pelo time do Na Prática.
Uma das escolhidas foi Maria Laura Rastelli, estudante de psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Entre o tempo limitado e o nervosismo, a apresentação exigiu selecionar quais experiências mereciam espaço e quais ficariam de fora. “O pitch em si exige atenção ao tempo e ao limite ali de que você vai falar ou não falar”, conta.
Quem conseguiu aproveitar bem foi Lucas Ibanez, de 19 anos, estudante do segundo semestre de Ciência da Computação no Insper e vencedor do pitch — que recebeu a maior nota entre as empresas presentes.

Bolsista integral e primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior, ele decidiu construir uma narrativa conectando momentos de sua trajetória para explicar como chegou até a universidade. “Eu usei um pouquinho a ideia da jornada do herói, para mostrar que eu saí de baixo e que, mesmo assim, foi possível alcançar patamares mais altos”, explica.
“Você ter muitas experiências antes, seja com projeto, com um evento, é muito importante porque, na hora, você já tem aquela situação que encaixa. Eu acho que essa experiência de vida é importante para você ter esses gatilhos rápidos”, acrescenta. “O primeiro lugar foi uma validação de que eu estou seguindo o caminho certo.”
Antes de as mesas de relacionamento serem abertas, a programação começou com Edgard Corona, fundador do grupo Smart Fit, em uma conversa sobre empreendedorismo, liderança e decisões de carreira. O empresário foi convidado a participar do evento como uma forma de inspirar os jovens com sua história.
Ao revisitar diferentes momentos de sua trajetória, da faculdade de engenharia química à construção da maior rede de academias do país, o empresário destacou como experiências diversas contribuíram para sua formação.

“Você precisa experimentar, precisa passar por algumas experiências”, afirmou Corona. Segundo ele, a universidade também deve ser encarada como um período para conhecer diferentes áreas e desenvolver uma formação que vá além da profissão escolhida. “É uma oportunidade de você ter experiências diversas que contribuem para a formação do eu, do eu ser humano”, completou.
Uma vaga de emprego pode ser o resultado mais desejado na Conferência de Carreira, mas não é o único. Alguns aprendizados aparecem quando o participante deixa o evento e começa a olhar de outra forma para as próprias escolhas.
Júlia Peghini, 22 anos, formada em sistemas para a internet pelo Instituto Federal de Brasília (IFB), já tinha essa perspectiva quando voltou à Conferência. Ela decidiu viajar sozinha para o evento, investindo recursos próprios.
“Às vezes, o pessoal olha para a Conferência só como ‘ah, eu vou lá para eu sair com uma vaga’, mas acho que vai muito além disso. Foi um evento para pensar no autoconhecimento, para entender o que de fato eu quero para a minha carreira”, afirma.
Segundo um levantamento do Na Prática em parceria com a FGV, 45% dos participantes da Conferência decidem a carreira que querem seguir após o evento. Esse número indica que as conversas nas mesas de relacionamento, os painéis de conteúdo e as trocas com outros jovens contribuem para ampliar o entendimento sobre o mercado de trabalho.
Ao colocar estudantes em situações de descoberta e facilitando o networking, a Conferência se torna um espaço para ampliar as possibilidades de carreira, algumas delas que nem mesmo estavam nos planos dos jovens. E eles deixam o evento com uma compreensão melhor do mercado de trabalho e com algumas entrevistas marcadas.
A segunda edição da Conferência de Carreira 2026 teve a participação de BTG Pactual, Bradesco, Bees, Cerc, Cora, Itaú, QI Tech, Riachuelo, Sabesp, Shopee, Zamp, Amazon, Bain & Company, Ensina Brasil, Fundação Lemann, Grupo Energisa, Nestlé, SEK, Stone, Unilever e Rede D’or.
A próxima edição da Conferência de Carreira acontece no primeiro semestre de 2027.